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    Crônicas e Contos
     

    EXPERIMENTAÇÃO



    Porquês

    Por Beto Pacheco

     

    O bom de ter um blog é poder escrever o que se bem entende, sem censura, quando e onde se achar devido, pois não se deve satisfação à mais ninguém que não a si mesmo... Pára tudo! Puxa o freio, aperta o cinto, abaixa o som e encosta.

     

    Como é que não se deve satisfação?! Tá maluco?! E cada pessoa que entra para ler o que vossa graça escreveu? Se as pessoas depositam suas expectativas no seu trabalho, como é que você pode dizer que não pensa em ninguém nessas horas? Não seja sínico: você escreve para elas. Que graça teria deixar essas linhas mal e porcamente traçadas (ou digitadas) em uma gaveta?

     

    Não é só uma questão de expectativa, tem também o tempo e a disposição em lê-lo. Deve ter um porquê delas fazerem isso. “Beto, elas fazem isso porque são suas amigas e têm medo de te falar que seus textos são meio fraquinhos. Daí entram aqui para evitar um constrangimento maior para você mesmo”. Será?! Não, me nego a acreditar. Alguém deve achar bacana. Nem que seja uma ou outra crônica, devem gostar...

     

    Quer saber por que estou falando sobre isso? Se está batendo uma crise existencial? Não. Escrevi tais indagações, primeiro, porque estou surpreso e felicitado com o carinho de tanta gente que passa por aqui e deixam seus recadinhos. Segundo, porque queria fazer um texto com bastantes pontos de interrogação (perceberam a quantidade de perguntas que fiz a mim mesmo?). Terceiro, porque escolhi o título antes, daí já era.  E quarto porque não tinha escrito nada para hoje, não publiquei de manhã e só estou postando agora, minutos antes de viajar. Como deixaria todos vocês sem um mínio de atenção no fim de semana, não é mesmo? E é isso.

     

    Ah, para aonde vou? Para Joinville, levar o Boteco Que Nos Acolhe para outras paragens. Mas calma, amigos, semana que vem certamente teremos BNA em Curitiba. Até por que (para manter o título da crônica), é aqui que estão as pessoas que fazem o projeto ser o que ele é.

     

    Beijos e abraços a todos



    Escrito por Beto Pacheco às 18h34
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    Este texto foi escrito para o núcluo da PUCPR...

    Labirinto

    Por Beto Pacheco

     

    Era um aquário. Desta forma, talvez, eu possa descrever àquela sala de espera do Cine Ástor. Lembra? Talvez não seja do seu tempo, mas era singular. Você comprava o ingresso e entrava nessa salinha, cercada por paredes de vidro, com sofás e cartazes espalhados aleatoriamente, para aguardar o início da sessão. O aroma, óbvio, era de pipoca. Uma pipoca amarela, amanteigada, que todos pegavam com antecedência e ficavam comendo ansiosos.

     

    Estranho que o instante em questão não era nenhum em especial, era, simplesmente, uma tarde no cinema. A singularidade dessa tarde fica no fato dela não ser precedida por uma manhã de trabalho, muito menos ser prévia de uma noite mergulhado em livros e cadernos. Isso mantinha o pensamento leve, livre para absorver as imagens vindas da tela. Sem culpa, sem, sequer, olhar para o relógio preocupado com o horário. Inclusive, acho que o relógio era de brinquedo.

     

    O filme não pode ser considerado, assim, o "filme da minha vida", mas é o primeiro que compreendi por completo - mesmo com legenda. Chamava-se 'O labirinto', ou algo do gênero. Lembro-me perfeitamente de David Bowie, o bandidão da história (lógico que, na época, não sabia quem era David Bowie), controlando três esferas de vidro que flutuavam sobre sua mão. Mágica! Sentia medo, admito. Afinal, o labirinto, e o senhor Bowie (esqueci o nome do personagem), eram - como dizem hoje? - sinistros.

     

    Pensando bem, não me recordo de muita coisa além disso. Curioso, não? Vislumbrei até a possibilidade de pegar o filme novamente para escrever mais detalhadamente sobre a história, mas achei que era melhor ficar como está. Por quê? Simples: pois acredito que as marcas importantes não seriam as do filme e, sim, as do momento. Um tempo que não volta mais e que deixou registrado de forma recortada apenas os traços que deveriam permanecer. Decidi que esse texto seria deflagrado por minhas lembranças, cruas e incertas. Os detalhes, o local, o aroma, as imagens, ficam a cargo da memória ou de uma imaginação fértil. Independente de qual delas seja a responsável, estou certo de que foram influenciadas pela magia do cinema.



    Escrito por Beto Pacheco às 10h00
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    Como a coluna de sexta-feira chama-se Experimentação... Um texto daqueles

    Metalinguagem, metadança, metasamba... Essas coisas

    Por Beto Pacheco

     

    Aviso aos navegantes: o importante não é saber dançar e, sim, gostar de fazê-lo e com entusiasmo.

     

    Falando em dançar, curiosa a relação das palavras substantivas “dança” e “samba”. Ambas têm a mesma sílaba tônica. Terminam, por serem paroxítonas, com a mesma letra reticente. Conjugam-se, quando se tornam verbos, do mesmo modo. Cirandam iguais números de letras. Inclusive, as do meio são primas-irmãs e andam de mãos dadas no alfabeto.

     

    Contudo, não querem dizer sempre a mesma coisa. Substantivamente falando, a dança é genérica. Aceita uma variedade infinita de estilos e ritmos. Até o samba, veja você. Já o samba é um estilo, dos mais brasileiros. Muitas vezes, diga-se de passagem, é dança. Mas uma muito específica.

     

    O momento em que ambas mais se aproximam é quando se tornam imperativas. Daí sim. Dança-se ou samba-se na marra. Podem ser sinônimas também, quando figuras de linguagem. Quem dançou ou sambou, nesses casos, não fica muito satisfeito. Porém, nem tudo é desgraça. Ainda mais quando se tem a certeza de que vai dar samba.

     

    Além do mais, tais palavras não se contentam apenas em ser a representação visual de uma música. Muitas vezes fazem parte da canção. Estão inseridas como o motivo para que determinada composição seja escrita. Beth Carvalho, por exemplo, canta: “Quem é e sambar, vem agora. Pra dizer no pé não tem hora. Quem samba por puro prazer de viver, desfaz essa magoa que só faz sofrer. Meu samba está pronto pra te receber”. E por aí vai...



    Escrito por Beto Pacheco às 09h58
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    Simplesmente, Noel

    Por Beto Pacheco

     

    “Agora vou mudar minha conduta. Eu vou à luta, pois eu quero me aprumar. Vou tratar você com a força bruta, pra poder me reabilitar. Pois essa vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa? Com que roupa eu vou, pro samba que você me convidou?” (Noel Rosa).

     

    No último dia 04 de maio, completaram-se os 70 anos da morte de Noel Rosa. O poeta de Vila Isabel, Rio de Janeiro, morreu jovem, com apenas 26 anos.

     

    Só a comparação da pouca idade, com o tamanho da sua obra, já poderia ser suficiente para caracterizá-lo como um dos gênios da música brasileira - independente de estilos. Contudo, não se pode esquecer o contexto da época em que Noel viveu.

     

    Acredito que ele tenha sido o nosso primeiro cronista musical. Cantava o cotidiano da sua cidade, o Rio, de forma ímpar e relatava suas experiências de modo poética. Mais tarde, outros o copiaram. Por isso ele figura entre os grandes: porque é daqueles a ser imitado.

     

    Tem mais: as letras de Noel transitavam entre o conotativo e o denotativo. Quem disse que a roupa, da música acima, é roupa mesmo? Falam por aí que o samba teria sido inspirado na vida do compositor. Boêmio inveterado, sua mãe esconderia as roupas do rapaz para que ele não caísse na gandaia noite após noite. Outros acreditam que a “roupa” significava, talvez, dinheiro.

     

    Pois quer saber, faça a sua escolha. Ou defina um novo significado, não importa. A obra de Noel Rosa foi feita para interagir com você, sete décadas antes da Era da Informática. A arte dele é atemporal, inovadora, crítica, carregada de humor e, principalmente, brasileira.



    Escrito por Beto Pacheco às 00h24
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