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CRONISTA CRÔNICO
O homem invisível
Por Beto Pacheco
Todo dia, ao ir para o trabalho, eu passava pela Praça Tiradentes. Ele sempre estava lá, ao lado da catedral, com uma toca na cabeça e vestindo roupas encardidas. Era mais um artista ambulante que nada representava aos passantes. Vivia cercado por telas e tintas, mas poucas pessoas paravam para apreciar seus quadros. Maravilhosos! Os temas mais freqüentes eram paisagens, natureza morta, mas também fazia alguns retratos.
Figuras assim sempre me fizeram refletir. Imagine a quantidade de talentos desperdiçados. Possíveis gênios que deixam de vingar porque a sociedade não lhes dá a chance de mostrar suas aptidões. Pessoas que vivem em situação de pobreza e que teriam suas vidas alteradas com uma simples ajuda do destino.
Pensando nisso, resolvi comprar um dos quadros daquele homem "invisível". No dia seguinte, fui cedinho até o local onde ele expunha seus trabalhos. Queria saber o porquê de não procurar algo melhor. Talento? Tinha de sobra. Então, por que acabar na rua? Cheguei e encontrei-o absorto. Pintava um vaso com belos girassóis. Questionei-o sobre o preço. Nada. Ficou em silêncio, concentrado. Perguntei seu nome. Um olhar. Por alguns segundos parou o que estava fazendo e me direcionou um olhar. Voltou para a tela e disse:
- Vinte mangos.
Achei estranho. Mas, tentando puxar conversa, mandei:
- Bonito nome! Curioso, mas bonito.
- Não. É o preço. Custa vinte mangos.
Senti-me um idiota. Claro! Era o preço. Tentei manter o diálogo:
- Desculpe-me. Lógico que era o valor, só estava brincando. Há quanto tempo pinta?
Passou em branco. O homem não era nada amistoso. Perguntei se a tela com o girassol estava à venda e ele respondeu, novamente, "vinte mangos". Saquei o dinheiro da carteira e, sem mais delongas, levei embrulhado em jornal meu novo enfeite para casa.
Não sou um grande conhecedor, mas sempre apreciei a arte. A obra do "Invisível" era belíssima. No meu apartamento, com calma, comecei a observar as cores, a textura, a técnica... Lembrava alguém. Não conseguia definir, mas tinha uma inspiração presente.
Continua abaixo...
Escrito por Beto Pacheco às 12h54
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continuação
No dia seguinte, mostrei o quadro a um amigo que faz restaurações em peças de arte. Cláudio havia trabalhado para grandes museus e fundações em todo o Brasil. Ao examinar a tela, exclamou:
- Lindo! Não está assinado, de quem é?
- De um artista de rua que fica na Praça Tiradentes.
- Sério?! É magnífico! Uma técnica impressionante.
- Acha que pode valer alguma coisa?
- Não tenho certeza, mas se puder deixar comigo até amanhã farei uma melhor avaliação.
- Claro, amanhã passo para pegá-lo.
À noite, não conseguia tirar aquela história da cabeça. Ficava imaginando se o quadro tinha algum valor, se poderia alavancar a carreira daquele homem. Mas, enquanto divagava, o telefone tocou. Eram quase dez horas.
- Oi! Sou eu, o Cláudio.
- Tudo bem, Cláudio? Alguma novidade?
- Sim. Você poderia vir até aqui, agora?
- Mas são quase dez horas. Algum problema?
- Não sei ao certo. É que... Não quero falar pelo telefone. Você precisa vir até aqui.
- Certo. Chego aí em meia hora.
Ele estava realmente aflito ao telefone. O que poderia ter acontecido? Fui para sua casa o mais rápido possível. Ao entrar em seu apartamento, ele disse:
- Esse quadro, de quem é mesmo?
- Já lhe disse, é de um cara que fica na Tiradentes. Acho que é morador de rua, sei lá.
- Bom, ou ele é um falsificador espetacular, e está perdendo dinheiro ficando na rua; ou achou esse quadro e vendeu sem saber o que tinha nas mãos.
- Como assim?
- Se não fosse absolutamente impossível, eu poderia jurar que você comprou, por 20 reais, um legítimo Van Gogh.
- O quê?!
- Exatamente. Quando você me mostrou, desconfiei e resolvi avaliar mais detalhadamente. Não tenho dúvida. É uma imitação perfeita ou um original desconhecido, mas esta hipótese é absurda.
Continua abaixo...
Escrito por Beto Pacheco às 12h53
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Continuação
Saí do apartamento atordoado. Incrível! Os quadros daquele homem eram realmente bonitos, mas jamais imaginei tal situação. Um Van Gogh?! Por mais que fosse imitação, era fantástico. Precisava interrogar o "Invisível". Tinha que tirar aquela história a limpo.
Era meia-noite. Dirigi-me à Tiradentes na esperança de encontrá-lo. Fui até o ponto onde ele ficava todas as manhãs. Ao chegar próximo, avistei algumas luzes vermelhas piscando.
- O que ocorreu? - Perguntei ao policial que isolava a área.
- Nada demais. Encontramos um mendigo que ficava sempre neste ponto morto.
- Meu Deus! Quem fez isso?
- Ainda não sabemos. Aparentemente foi suicídio. Estamos esperando a perícia para ter certeza.
- Que tragédia!
- Tragédia?! Era um vagabundo.
- É que... Tinha algum pertence junto, sabem o nome dele?
- Ainda não encontramos nada. Mas tem um fato esquisito...
- O quê?
- Ele foi encontrado sem a orelha esquerda.
- Nossa Senhora!
- Estranho, não?
- Você não sabe quanto.
No dia seguinte, a morte daquele indigente aparecia estampada na capa da Tribuna. Também havia uma foto e a orelha esquerda decepada era o principal ingrediente da manchete. Abri na matéria e descobri que os policiais teriam encontrado um quadro próximo do corpo. Era a única obra assinada. Seu nome era Vicente e agora todos paravam para vê-lo.
FIM
Escrito por Beto Pacheco às 12h52
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Não custa tentar
Por Beto Pacheco
Policiais fazem a ronda e avistam um provável delito. Dois rapazes, com atitudes suspeitas, estão escondidos na penumbra de uma esquina da Vila São Paulo. O sargento Silva pára a viatura e desce do carro gritando:
- Ninguém se mexe!
De armas em punho, os policiais mandam os dois jovens encostarem contra a parede e começam a revista. Ao colocar a mão no bolso da blusa, o sargento exclama:
- Erva! Os dois tão numa fria.
- Calma aí, seu Guarda! A gente só tava "dando uma bola", nada mais.
- Não seria nada se fosse uma noite agitada, mas, como está tudo tranqüilo, temos que mostrar serviço.
- Peraí, podíamos conversar, sei lá...
- Nada de papo. Mãos para trás.
Enquanto a ação acontece, aproxima-se um maloqueiro (como são conhecidos aqueles que moram em malocas, saudosas ou não, e que vagam, invariavelmente, sem rumo). Ele chega até os guardas e resmunga:
- Ô... Dotô...
- O que é? Não vê que estamos trabalhando, rapaz?
- Eu vi, dotô. Mas é que... Queria pegá minha bicicreta.
- Que bicicleta?
- Aquela ali, que tá caída ao lado desses elementos que o senhor tá prendendo.
Continua...
Escrito por Beto Pacheco às 09h56
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Continuação
Os dois rapazes, que a essa altura já estavam algemados, apenas escutam a conversa com os rostos grudados à parede.
- E você larga sua bicicleta, assim, em qualquer canto? - Questiona o policial.
- Foi mal. Sabe como é, tava atrás da moita do outro lado da rua e só fiquei longe um pouquinho. A cidade tá fogo, né?
- Né. Agora, pega a magrela e se manda.
O maloqueiro, aparentemente constrangido por atrapalhar os policiais, fica muito agradecido. Pega a bicicleta e prepara-se para ir embora, quando:
- Seu Guarda. - Reclama um dos rapazes algemados.
- O que é, mané? Não adianta chorar. Vão passar a noite em cana e...
- Não é nada disso. É que a bicicleta que ele está levando embora é minha.
Escrito por Beto Pacheco às 09h55
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Alegria do povo
Por Beto Pacheco
Ah! Domingo, dia de Clássico. Ele começa a se preparar desde cedo. Separa bandeira, camisa, gorro, radinho de pilha e fones de ouvido. Tudo pronto. O jogo será às 16 horas, mas ele gosta de chegar uma hora antes ao estádio. Engole o almoço e sai apressado para pegar o ônibus.
A condução já chega lotada. Para entrar é um sufoco. Empurra daqui, empurra dali, até que nosso torcedor consegue achar um cantinho. A massa entoa gritos de guerra com rimas inspiradas. Por sorte, a torcida é a favor. Olha para o lado e reconhece de vista a figura ao seu lado: Toicinho, o chefe da bateria. Um metro e noventa, 120 quilos. Chamado de "O Generoso", pois compartilha sua catinga com todos ao redor.
Quando desce do ônibus está grogue, tamanha é a fedentina. Leva alguns segundos para se recompor e quando desperta percebe que levaram seu gorro. Pior, seu gorro da sorte. Tudo bem, a vida segue e o jogo está próximo - não necessariamente nessa ordem. Faltam cinco quadras para chegar ao estádio. De repente, encontro de torcidas. Pancadaria generalizada. Resultado: oito presos, três carros destruídos, uma criança chorando, um pai procurando a criança que está chorando, dez feridos (incluindo um PM) e a bandeira que ele carregava às costas rasgada ao meio. Pelo menos ele saiu inteiro. Achou um bom sinal. Vitória à vista!
Chega à frente do templo sagrado, palco de tantas alegrias. A fila para comprar ingressos é enorme. Empurra-empurra novamente e ele consegue uma boa colocação. Com boa vontade, conseguirá seu ingresso em 15 minutos. Enquanto espera, avista o portentoso muro que se ergue à sua frente. As arquibancadas do majestoso. Olha para o cume e percebe um objeto estranho despencando. O copo o acerta em cheio. Ao que tudo indica, não é cerveja. Alguns impropérios depois, e de ingresso na mão, recupera o ânimo.
Entra e procura um bom lugar para se sentar. Fica ao lado da organizada. O jogo começa. Uma chuva torrencial também. O radinho encharca e pára de funcionar. Ele está só com a camisa do clube e mais nada. Jamais colocaria outro pedaço de pano sobre o manto sagrado. O frio aperta. O time adversário aperta. Seis minutos de jogo e os "hóme" fazem o primeiro gol. Ele mal pode acreditar. "Que timinho o nosso", reclama. Vira para um senhor sentado à sua esquerda e fala: "Não dá nada, com certeza vamos virar". Isso aí, rapaz, otimismo.
O primeiro tempo acaba em três a zero, contra. A organizada explode. O enfrentamento se dá na divisa entre as torcidas e sobra borrachada para todo lado. O coitado acaba com três hematomas, mas pelo menos deu um pontapé num torcedor "filho-da-puta" da outra agremiação. A polícia consegue controlar a briga e o jogo recomeça. A chuva pára e o vento sopra. Frio.
Continua...
Escrito por Beto Pacheco às 00h55
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Continuação
Aos 15 minutos do segundo tempo, no quarto gol dos inimigos, estoura uma bomba de fabricação caseira na arquibancada. Maior que a dor no peito, ocasionada pela bola estufando a rede, é a pontada no ouvido direito. Perde parte da audição. Normal, coisas que acontecem em um estádio. O clássico segue no mesmo ritmo, o do adversário, até os 44 do segundo tempo, quando sai o quinto gol. A pá de cal.
O árbitro apita o final do jogo e ele fica parado olhando o gramado esburacado. Levanta-se e segue para a saída. As roupas estão molhadas e não carrega mais consigo o radinho de pilha. Arremessou-o no bandeirinha aos 37 minutos do segundo tempo. Caminha cambaleante, desalentado. Encontra-se a uma quadra do ponto de ônibus. Na esquina, 12 torcedores da outra equipe. Ao se aproximar eles levam sua carteira, seu tênis e arrancam-lhe a camisa. A polícia chega a cavalo e desfaz a roda. Mais quatro hematomas e uma costela quebrada. Cinco presos. Entre eles, o nosso torcedor.
A mulher, constrangida, paga a fiança do marido. No trajeto até a sua casa, ele nada fala. Só pensa em uma coisa: no Alceu. "Aquele filho-da-puta vai me sacanear amanhã no trabalho. Mas isso eu não admito. Sarro depois de goleada eu não admito".
No dia seguinte, ele acorda, toma café em silêncio e vai para o escritório. A mulher sabe que não é hora de falar nada. Ao entrar, vê o Alceu sentado no lugar de sempre. Segue em sua direção. O colega percebe sua presença e se levanta com um sorriso estampado. Ele desfere três tiros a queima roupa. "Sacanear depois de goleada eu não admito, pô!"
Escrito por Beto Pacheco às 00h54
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Necessidades básicas
Por Beto Pacheco
Eis que, com a invenção do celular, criou-se um problema: aparentemente, para muitos, nada havia existido antes do "inevitável" aparelho. “E aquele telefone preto, pesado, a lá Graham Bell, em que o Didi ficava falando ‘Arô, arô, é ieu!’, ninguém mais lembra?” Por acaso, o Homem vivia tranqüilo, deitado em sua rede esplêndida, quando pensou: "Por que não tiramos o falador de dentro das casas e o levamos conosco, em nossos bolsos?". Simples, não? Bastava ser do tamanho de uma caixa de fósforos. Se as empresas telefônicas já ganhavam rios cobrando por família - só havia aparelhos nas salas -, imagina recebendo por indivíduo.
Tudo bem, voltando à questão inicial - já que enredei em uma dialética delirante e quase me perco-, e antes do Big Bang do celular, como os habitantes deste planeta conversavam e trocavam informações? A comunicação, acho eu, no início, era feita através do grito. Silvícola de um lado do desfiladeiro e aborígine do outro. O de cá dava um berro pro de lá e pronto, informação transmitida. Não devia ser muito efetivo é verdade, mas, pelo menos, eles mantinham uma relação mais pessoal. O bom era que sempre havia resposta, pois, se o interlocutor não se encontrasse na margem oposta, o eco dava conta do recado. Logo, os continentes foram se afastando e o contato ficou mais difícil. Depois, inventaram o sinal de fumaça, que, afinal, deixava um pouco a desejar no quesito proximidade, mas era uma idéia interessante. Se o sujeito não quisesse transmitir algo muito complexo era tranqüilo. Se bem que, vai que o vento mudasse de repente.
Passou-se mais um tempo e piraram num negócio muito louco - alguns até hoje não entendem direito - chamado escrita. Agora sim: a letra "B", por exemplo, passou a ser a letra "B", e não duas baforadas curtas de fumaça. Mas nem tudo era azul, ou cinza, sei lá. Com o desenvolver da escrita veio o progresso. Era carta pra lá, bilhetinho pra cá, e todo o mundo se comunicando. Logo mais, surgiram os livros e todos se regozijaram pela maravilha do conhecimento. Contudo, não há bens que não venham para o mal e aquela exposição toda começou a causar nas pessoas uma certa preocupação com relação à propriedade de seus pensamentos expressos em texto. Foi então que inventaram o "Copyright". Só não tenho certeza se a ordem foi bem essa.
Porém, o ser humano é danado e não se contenta com pouco. Não bastava enviar mensagem via lombo de burro, tinha que ser mais - digamos assim - tecnológico. Nasce então o telégrafo. Fulano (descendente do silvícola) ficava de um lado da linha e Beltrano (do aborígine) do outro, e ambos eram amigos de Sicrano (que não tinha pai nem mãe), responsável pela manutenção dos cabos. Era só apertar as teclas e pronto.
Continua...
Escrito por Beto Pacheco às 09h52
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Continuação
E o código Morse? Ponto, traço, traço, ponto, ponto (a mente humana é um mistério mesmo). Foi, então, que um desses daqui, terráqueo de estirpe e com a mente bem mais privilegiada, criou o telefone. Um assombro. Era só tirar do gancho, discar meia dúzia de números, e falar com o seu filho que se encontrava do outro lado do mundo. O único empecilho era a conta do DDI, que não vinha especificada na embalagem do produto.
Nessa época, todos achavam que as coisas, para serem boas, tinham que ser grandes. É só dar uma espiada nos filmes de ficção científica da década de 50: quanto maior o computador, melhor. Durante muito tempo as pessoas acreditaram nisso e alguns pensaram em antecipar o futuro. Em Itu, por exemplo, é tudo gigantesco - já viram o tamanho dos "orelhões" de lá? Mas as dificuldades vindouras eram óbvias: alguém havia pensado no tamanho das fábricas que iriam produzir aqueles trambolhos? Não. Então, decidiram reverter o processo e tudo deveria ser pequenininho. Diminuíram tanto o aparelhinho que, logo-logo, todos podiam carregá-lo sem problemas. Até a dona Zeferina, minha vizinha, que tem problema de coluna e não pode carregar peso, adquiriu um.
Daí foi um “Deus nos acuda!”. Você estava no restaurante e o bolso de todo mundo começava a vibrar - sem malícia, por favor. Ninguém mais falava com o colega ao lado no ônibus, só com o dito do celular. Minha irmã só conversa com as amigas através de mensagens e, detalhe, todas se encontram no mesmo recinto. Tudo porque, com a tecnologia, passamos a atender as nossas necessidades básicas.
Escrito por Beto Pacheco às 09h51
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Convenções
Por Beto Pacheco
Andei pensando - verdade, eu consigo - e cheguei à conclusão de que temos convenções demais neste mundo. Uma delas, por exemplo, é pentear o cabelo. Chega!, cansei. Não vou mais pentear o cabelo. Na realidade, já não o faço há muito tempo, mas agora serei radical. Nem ajeitar com a mão eu vou mais.
Expliquem-me, para que serve? “Ah!, mas o cabelo é a moldura do rosto”. Não me venha com essa. É tudo uma questão de modismo. Cabelo é só cabelo. Um chumaço de pelos pendurados na cabeça. Além do mais, não vou mais pentear o cabelo porque cada escovada que eu dou é um bolo de fio que sai junto. “Mas é dos carecas...” Uma ova!
Não senhor, ninguém vai me convencer do contrário. Sem contar que vocês, mulheres, gastam uma fortuna em cremes, condicionadores e xampus. Alguns homens também. Como chamam mesmo? Ah, sim, metrossexuais. O negócio é lavar com sabão de coco, rapaz. Larga mão dessa vida! Ou, se preferir, adere ao rastafarismo e não lava nunca. Tudo bem, tudo bem, daí já é exagero.
Mas, falando sério agora, eu me sinto bem assim. Acho que ganharei muito com essa medida. Já pararam para calcular quanto tempo de nossas vidas perdemos em frente ao espelho? Vejamos: se você leva - para pegar leve - cinco minutos por dia penteando o cabelo e pretende chegar vivo aos 75 anos (sem estar completamente careca), desconte os primeiros cinco anos de vida, durante os quais sua mãe lhe penteou, e terá passado, ao todo, 70 anos penteando o cabelo pelo menos cinco minutos por dia. O que dá um total de (sério, tive a pachorra de fazer a conta): 127.750 minutos, ou 2.130 horas. Pior, se minhas contas estiverem certas, você perderia 89 dias da sua vida penteando o cabelo.
Ou seja, abaixo as convenções capilares. Chega dessa escravidão estética. E, mãe, em breve vou parar de arrumar a cama também. Que é isso, nós sempre acabamos por desarrumá-la à noite novamente. E tem mais: sabe as unhas do pé?
Escrito por Beto Pacheco às 09h34
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