Oi, pessoal. Não é de praxe este blog republicar um texto tão recente. Contudo, esta crônica abaixo é especial, pois ficou entre as 10 “Menções Honrosas” doConcurso de Crônicas da Editoras Guemanisse (RJ). O concurso contou com 1.192 textos inscritos, sendo dois meus. “Insatisfação” será publicada em uma coletânea. Obrigado, porque sem as leituras, comentários e o carinho de vocês talvez esse blog já tivesse se encerrado e estes textos nem existissem. Beijos e abraços!
Hans está insatisfeito porque não tem dinheiro para trocar seu BMW.
Maria está insatisfeita porque precisa pegar o ônibus às cinco horas da manhã para ir trabalhar.
Anna está insatisfeita porque acabou o sorvete de chocolate.
Joaquim está insatisfeito porque não tem mais caviar
Fernando está insatisfeito porque não conseguiu matricular sua filha na escola que queria.
Kanu está insatisfeito porque é escravo numa mina de diamantes.
Mark está insatisfeito porque descobriu que Papai Noel não existe.
Luizinho está insatisfeito porque não terá sequer ceia para comemorar.
Vladmir, ou Влади́мир, está insatisfeito com o frio de – 20 C°.
Lawrence está insatisfeito com o calor de 45 C°.
Paolo está insatisfeito porque não consegue pegar tantas mulheres quanto seu amigo Franco.
Franco está insatisfeito porque terá de comprar mais cocaína.
Petrovich está insatisfeito porque não tem um fuzil de longo alcance.
Tommy ficará insatisfeito porque estará de serviço na delegacia no dia do massacre.
Alana está insatisfeita porque não consegue engravidar.
Dani está insatisfeita por estar grávida e não ter como cuidar.
Henry está insatisfeito porque seu irmão, Willian, assumirá o trono.
Willian está insatisfeito porque queria mais privacidade.
Raimundo está insatisfeito porque a última vaca que tinha morreu de sede.
Mauro está insatisfeito porque a onça que tem matado seu rebanho escapou da armadilha.
Ricardo está insatisfeito porque sua ONG não consegue salvar o número de onças que deveria.
Papapoulos está insatisfeito porque acha que sua mulher engordou demais.
Valery está insatisfeita porque seu marido tem chegado tarde seguidamente.
Victoria está insatisfeita por não se achar magra o suficiente para a passarela.
Akeem está insatisfeito por estar num campo de refugiados. Seu filho, Hussein, está insatisfeito por ter de orar diariamente.
Lucca está insatisfeito porque só conseguiu realizar o trabalho encomendado após o terceiro tiro. Ele é perfeccionista.
Luana está insatisfeita porque não conseguiu arrecadar a quantidade de doações que queria. Ela é perfeccionista.
Ronaldinho está insatisfeito com seu trabalho.
Lee está insatisfeito por estar desempregado.
Clint está insatisfeito com os imigrantes.
Saddan está insatisfeito com os invasores.
Galileu ficou insatisfeito por duvidarem dele.
Darwin também.
Brian ficou insatisfeito porque Paul lançou um disco melhor que o dele.
Paul ficou insatisfeito com John por achar que ele não se preocupava com a banda como deveria.
John ficou insatisfeito com Paul por achá-lo egocêntrico.
Yoko concordou com John.
Van Gogh estava insatisfeito com sua orelha.
Charles Manson estava insatisfeito com o mundo em que vivia.
Hitler também.
Gandhi também.
Desmont Tuto Também.
Correa está insatisfeito com Uribe que está insatisfeito com Chávez que está insatisfeito com Obama que está insatisfeito com Kim Jong-il que também gera insatisfação em Taro Aso.
Pedro ficará insatisfeito amanhã por algum motivo.
Largo da Ordem. Mesa na calçada. Dezoito horas. Sábado. Primeira cerveja.
Passam-se vinte minutos. Cadê o garçom? Olham sobre os ombros. Enxergam-no. "Ô, Psit! Chefia..." Ele dá as costas e entra no bar.
Mais cinco minutos. "Não, não quero comprar artesanato!". Trinta graus. Chega o garçom, com a cerveja. Cinco copos. Esvaziam a garrafa. Quatro goles de cada. Esvaziam os copos. "Acho que devemos pedir duas de cada vez. Uma só não vai dar."
Passam-se dez minutos. Lá vem ele, o garçom. "Mais duas..."
Outros quinze minutos. Grupo punk à esquerda. Distância: vinte metros. Não é suficiente. Falta de banho. Chegam os dois cascos, com o garçom. Copos cheios. Fica um resto na garrafa para completá-los. Seis goles e meio, em média. Grupo suspeito aproxima-se. Param perto dos punks. Não agüentam.
Desespero: acabou a cerveja. Garçom na mesa ao lado. Atendimento rápido.
Carro prata estacionado a vinte e cinco metros. Grupo suspeito está ao lado do carro. No total, três homens. Estouro. Cacos no chão. Aparelho de som. Grupo sai calmamente.
Cadê a cerveja? Mais doze minutos. "Já trago a de vocês...", grita o garçom.
"Não! Já falei, não quero comprar artesanato!"
Punk cai. Coma alcoólico. Garrafa de vinho rola pela calçada. Vinte metros. Chega aos pés do bêbado. Sorriso. Três goles.
Chegam mais duas. Cervejas.
Bêbado na sarjeta. Acabou o vinho da garrafa. Punk ainda no chão. Tocam os sinos. Missa das sete.
Três homens, não mais suspeitos, ao lado do carro vermelho. Vinte e dois metros. Aparelho de som... Polícia?
Bêbado entra na igreja. Sede. Água benta.
"A conta!"
Tomba mais um punk.
Cadê o bêbado? Não faz mal, chega outro para ocupar a sarjeta.
Vinte e cinco minutos passados. Vem a conta, com o garçom. Salta um punhado de moedas. Assaltaram a igreja? Não. Nem o bêbado.
Chega a ambulância. Uma. O segundo punk tem que esperar.
Os cincos se levantam. Encaminham-se para o carro. "Onde está o guardador?" Cacos de vidro. E a polícia?
Poesia de Waly Salomão musicada por Jards Macalé e cantada em ritmo de blues por Luiz Melodia - será que é bom? É um misto de música com documentário (bem curtinho, mas muito legal).
-Ô, Marivaldo, o que você acha de tirarmos uma tarde pra nós?
-Epa, peraí, tá me estranhando, Pouca Idéia?
-Não, que é isso!? Ô, Marivaldo, você não tá pensando que eu... Meu Deus do céu, Mariva, não foi nada disso... Como é que tu vai pensar uma coisa dessas de mim... Eu só...
-Bom, foi você que veio com esse papo aí, oras!, que é que você quer que eu pense?
-Ôrra, Marivaldo, sou eu... Você me conhece há anos... Sou homem de confiança, meu chapa, macho mesmo, daqueles que não sentem nem calafrio e nem arrepio na espinha.
-Então cuide com as palavras.
-Tá certo, tá certo, foi culpa minha... culpa minha. O que eu tô querendo dizer é da gente largar mão do trabalho hoje e tirar uma tarde no Boteco do Clodoaldo, tomando uma geladinha, jogando conversa fora... que que tu acha?
-Hum!, mas, também, tu não se explicas. Daí fica difícil de adivinhar, né, Pouca Idéia? Ainda mais com um apelido desses...
-Ah tá!, Marivaldo, vai falar do meu apelido agora? E esse teu nome aí, que que tu me diz?
-Ei, esse nome foi minha mãe que escolheu. E com mãe a gente não sacaneia, Pouca Idéia. Se a mãe escolhe é porque ela sabe o que tá fazendo.
-É verdade, cê tá certo. Mãe é mãe, né, já dizia o outro...
-Que outro?
-O “outro”, ué!, não é assim que se diz? “Como já dizia o outro”, quando a gente não sabe quem foi que disse?
-Porra, Pouca Idéia, se tu não sabes quem disse fica quieto.
-É? Mas daí não vão achar que eu não entendo muito das coisas, Marivaldo? Isso não é pior?
-Mas e não é verdade? Por que é que você acha que teu apelido é esse? Se tu não entendes, não entendes e ponto. Em boca fechada não entra mosquito, rapá.
-Você é cheio de querer se achar, Marivaldo... e essa história do mosquito aí, quem foi que disse? Fala aí.
-Chama expressão popular, Pouca Idéia.
-Ah é?! Bom... Não conheço essa dona aí não, mas deve ser sabida...
-É sim, Pouca Idéia, é sim.
-Sabe, uma vez me disseram que não importa se você sabe, o importante é os outros acharem que você sabe...
-Isso lá é verdade. Daí te dou razão. Veja o caso do Doblevê, por exemplo. Só casou com a Margarida porque o danado trabalhava no balcão de informações da Biblioteca Pública.
-Verdade, hehehe, mas dizia pra ela que era consultor...
-É, mas o infeliz só dava informações dos horários de funcionamento da biblioteca, das salas e da localização dos banheiros... Mas ela achava que ele dava consultoria de literatura, que era uma sumidade.
-Hehe, malandro é malandro, mané é mané, já dizia o outro...
-O Bezerra... Porra, Pouca Idéia, foi o Bezerra quem disse. O BEZERRA!
-Tá, tá, já entendi. Ô, Mariva, o que é...
-Marivaldo, é Marivaldo, Pouca Idéia, já disse que gosto do nome completo.
-Tá, tá, desculpa. Então, o que é que quer dizer sumi... sumin...
-Sumidade.
-Isso! Que que isso aí quer dizer mesmo?
-Ah, é alguém que manja de tudo, que é inteligente, que é especialista em alguma coisa...
-Hum, tendi. Tipo, porreta mesmo.
-É, isso, “porreta” explica bem.
-Sabe, mas, além disso, também acho que a Margarida ficou gamadona no Doblevê porque ele tem nome de ator americano. Fala aí, Walter Wellington não é pra qualquer um, meu irmão. E a Margarida sempre gostou dessas palavras com doblevê, ipisilone... essas letras gringas.
-Pode ser, pode ser, transmite uma coisa de status realmente. Não seria com um Zé da Silva que ela iria se enrabichar.
-Nem com um Marivaldo, hehehe...
-Escuta aqui, se for ficar tirando com meu nome fala logo, que acabo com esse papo é já.
-Desculpa, compadre, é que num guentei, hehe. Você é um cabra inteligente, mas, com um nome desse, ninguém acredita. Como já dizia aquele outro produto, “parece mas não é”...
-Denorex, Pouca Idéia, era o Denorex. Será que tu não guardas nada nessa cachola?
-Opa, sei de cor a escalação do Pavonense de 1983. Serve?
De João Bosco e Aldir Blanc - grandes cronistas. "De isca um sebo da véspera, e pra completar cachaça iemanjá / birita que dá garantia de ter maré cheia / choveu siri do patola, manteiga, azulão, um camaleão / no tapa a minha patroa espantou três sereias"